sexta-feira, 2 de julho de 2010

Rota 66 - A história da polícia que mata

Bruna L. L. Barros

Para quem não leu esse livro do Caco Barcellos, vai a minha recomendação, vale a pena ler, já que o autor nos apresenta uma realidade que muitos de nós não conhecemos. Aqui segue uma pequena resenha sobre essa obra fantástica!


O livro Rota 66- A História da Polícia que Mata, de Caco Barcellos, retrata casos de mortes inocentes causadas pela Polícia Militar de São Paulo, esta que foi responsável por 12 mil mortes inocentes. Entre os anos 1.970 e 1.980, Barcellos submeteu-se a um grande trabalho investigativo.
A origem de sua investigação se deu ao ser chamado para cobrir uma perseguição nas ruas de São Paulo entre a PM (a rota 66) e três garotos. Os policiais desconfiam de três rapazes que estão em alta velocidade dentro de um Fusca. “O carro é roubado, na certa”. Após quase duas horas de perseguição durante a madrugada, um dos membros da rota atira no carro dos garotos e acerta a cabeça de um deles, que morre na hora. O motorista do Fusca, menor de idade, pára ao ver que seu amigo foi baleado e desce do carro com as mãos na cabeça, os cinco homens fardados saem da viatura atirando contra o peito do menor, um deles usando uma metralhadora. Os rapazes não estão armados, mas a polícia atira nos garotos até a morte de cada um deles. Comemoram entre eles. Minutos depois descobrem que haviam acabado de matar três inocentes, e ainda, da classe média alta de São Paulo.
Como acontece em todos os casos relatados por Barcellos, nenhum tipo de punição é dada aos policiais, já que esses relatam os fatos como resistência à prisão e tiroteio entre “bandidos”. A equipe toda monta sua versão para que nada aconteça com eles, na mesa da delegacia, são colocadas a exposição de repórteres e fotógrafos as supostas armas usadas pelos supostos bandidos, e drogas também supostamente encontradas no porta-luvas do Fusca.
O caso foi registrado pelos policiais da seguinte forma: três bandidos, que não portavam documentos, deram início ao tiroteio, um deles atirou contra um dos policiais e a Rota apenas revidou para sua “legítima defesa”.
Dezessete anos após o crime, a família finalmente consegue provar a inocência dos três estudantes, mas nada aconteceu aos policiais da Rota, ficaram alguns meses cumprindo regime aberto e foram afastados do trabalho por um tempo.
A partir daí, Caco Barcellos decidiu dar início ao seu grande processo investigativo, e com sede de conhecer a história da polícia que mata criou um Banco de Dados baseado nas fichas correspondentes ao resumo das matérias do Notícias Populares, um famoso jornal da época entre o período de 1.970 à 1.979.
No decorrer do livro, vamos conhecendo vários casos parecidos, a maioria com envolvimento de policiais que também estavam envolvidos no caso Rota 66. Sempre registrado no Boletim de Ocorrência pelos PM’s como tiroteio e resistência a prisão por parte dos supostos bandidos.
A ficha, criada para dar praticidade a anotação dos dados principais de cada caso, traz informações sobre a vítima, como nome, idade, cor da pele, endereço, profissão, local e motivo da morte. Também armazena dados dos matadores, além dos nomes da delegacia, da área do tiroteio e do delegado que escreveu o Boletim de Ocorrência.
Barcellos retrata cada caso com tamanha riqueza de detalhes e de movimentos, que é possível fazer o leitor sentir e até ver a cena, como se estivesse presenciando tudo.
A obra de Caco Barcellos foi de grande importância, pois esclarece às pessoas o que realmente aconteceu com o povo brasileiro diante da ditadura.
Muitos de nós não conhecemos a realidade desses casos, o que tem por debaixo dos panos. Por que acreditamos sempre na versão da Polícia? O que mostra o autor é que a verdade muitas vezes é omitida da sociedade brasileira pela própria autoridade.
Polícia Militar matando pessoas por desconfiar que são bandidos. Ainda, as vítimas, em geral, eram pessoas pobres, negras ou pardas e com nenhum envolvimento com o crime.
Para muitos, a sucessão dos tiros era para fazer sofrer, para o fuzilamento ter um sentido exemplar. Isso só podia ser fruto de uma mentalidade doentia e violenta, de policiais que se mostravam indignos de usar suas fardas.
Vítimas desarmadas, indefesas, apavoradas com a perseguição policial e com os tiros disparados e, enfim, mortas, com requintes de crueldade, já que o número dos disparos foi muito além do necessário para o homicídio. O que fizeram esses policiais foi pelo simples prazer de matar. É esse o cenário que o jornalista Caco Barcellos propôs, de forma esplêndida e claríssima, nos mostrar, em Rota 66 - A História da Polícia que Mata.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Uma História de Sucesso na Sociedade Paulista

Bruna Barros



-- Uma homenagem ao meu tio, Hércules Franco --





Aos 19 anos saiu da pacata cidade de Salto e foi tentar a vida artística em São Paulo, foi assim que Antônio Hércules Silva Franco, ou apenas Hércules Franco, como é mais conhecido, começou sua tão sonhada vida artística.
Ao chegar na grande São Paulo, Hércules percebeu que as coisas seriam difíceis, “Descobri que não dava para viver só disso e tive que partir para outras coisas”. Prestou um concurso onde funcionava a Sumoc, a Superintendência da Moeda e do Crédito, atual Banco Central, mas, como grande homem de coragem que sempre foi, não desistiu do que queria. Com esperança e força de vontade, Hércules conseguiu montar sua primeira loja de discos, a DiscoFran, localizava-se na “Grandes Galerias”, em São Paulo, depois abriu uma segunda e uma terceira.
Ao montar sua gravadora, também chamada DiscoFran, lançou mais de 2 mil discos. Durante esse tempo, cursou dois anos de Publicidade e Propaganda e três de Jornalismo, na Faculdade Cásper Líbero. Lá também fez sucursal do jornal Diário do Povo, de Campinas.
Logo em seguida, abriu uma casa noturna na Galeria Metrópole, local onde funcionavam as casas mais famosas e badaladas de São Paulo, o “Ponto de Encontro”, era freqüentado por artistas e grandes nomes da música popular brasileira, como: Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Jô Soares, Sílvio Santos e sua primeira esposa, além de políticos dos anos 60. “Lá era o lugar onde as pessoas se lançavam, se queriam aparecer iam ao Ponto de Encontro.
Mais tarde, na época em que surgiu o Movimento Tropicalista através dos novos baianos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Maria Bethânia e Gal Costa ficavam hospedados no apartamento de Hércules, no Edifício Copan, logo no começo da carreira, também marcavam presença no Ponto de Encontro, foi lá que Hércules lançou o filme Garota de Ipanema, com as participações de Chico Buarque, Vinícius, Tom Jobim e Nara Leão.
Ficou até 1.970 com a casa noturna, já que não estava bem de saúde e estava sendo muito perseguido pela polícia pelo fato de ter muitos artistas declaradamente comunistas, “O Geraldo Vandré, quando foi banido do Brasil, cantava lá”.
Além de empresário, fazia outros trabalhos paralelamente, foi ator, e no auge da carreira artística, lançou e produziu também os filmes “O Conto do Vigário”, e “La Ronda De Los Dientes Blancos”, uma Co-Produção Argentina.
Hércules foi responsável pelo lançamento de muitos artistas, assim como o Tradicional Jaz Band, que até hoje faz sucesso, principalmente nos Estados Unidos. Foi comentarista por 5 anos em um programa chamado “Clarisse Amaral em desfile”, na TV Gazeta, onde falava sobre os lançamentos de músicas.
Em 1.990, adoeceu, e por recomendação médica voltou para sua cidade para ter uma vida mais tranqüila e saudável, “Era uma vida muito agitada, quase não dormia devido as várias funções que tinha, estava entrando em depressão, então tive que largar tudo”. Hércules vendeu o negócio por 1/5 do que valia na época e voltou para Salto, junto à sua família.
Hércules Franco não se arrepende de nada, hoje é aposentado e casado há 14 anos, vive uma vida feliz com sua esposa e tem duas lojas na cidade.

Na foto, Hércules com Jorge Bem, Gal Costa, Tom Zé e Caetano em sua casa noturna