Para quem não leu esse livro do Caco Barcellos, vai a minha recomendação, vale a pena ler, já que o autor nos apresenta uma realidade que muitos de nós não conhecemos. Aqui segue uma pequena resenha sobre essa obra fantástica!

O livro Rota 66- A História da Polícia que Mata, de Caco Barcellos, retrata casos de mortes inocentes causadas pela Polícia Militar de São Paulo, esta que foi responsável por 12 mil mortes inocentes. Entre os anos 1.970 e 1.980, Barcellos submeteu-se a um grande trabalho investigativo.
A origem de sua investigação se deu ao ser chamado para cobrir uma perseguição nas ruas de São Paulo entre a PM (a rota 66) e três garotos. Os policiais desconfiam de três rapazes que estão em alta velocidade dentro de um Fusca. “O carro é roubado, na certa”. Após quase duas horas de perseguição durante a madrugada, um dos membros da rota atira no carro dos garotos e acerta a cabeça de um deles, que morre na hora. O motorista do Fusca, menor de idade, pára ao ver que seu amigo foi baleado e desce do carro com as mãos na cabeça, os cinco homens fardados saem da viatura atirando contra o peito do menor, um deles usando uma metralhadora. Os rapazes não estão armados, mas a polícia atira nos garotos até a morte de cada um deles. Comemoram entre eles. Minutos depois descobrem que haviam acabado de matar três inocentes, e ainda, da classe média alta de São Paulo.
Como acontece em todos os casos relatados por Barcellos, nenhum tipo de punição é dada aos policiais, já que esses relatam os fatos como resistência à prisão e tiroteio entre “bandidos”. A equipe toda monta sua versão para que nada aconteça com eles, na mesa da delegacia, são colocadas a exposição de repórteres e fotógrafos as supostas armas usadas pelos supostos bandidos, e drogas também supostamente encontradas no porta-luvas do Fusca.
O caso foi registrado pelos policiais da seguinte forma: três bandidos, que não portavam documentos, deram início ao tiroteio, um deles atirou contra um dos policiais e a Rota apenas revidou para sua “legítima defesa”.
Dezessete anos após o crime, a família finalmente consegue provar a inocência dos três estudantes, mas nada aconteceu aos policiais da Rota, ficaram alguns meses cumprindo regime aberto e foram afastados do trabalho por um tempo.
A partir daí, Caco Barcellos decidiu dar início ao seu grande processo investigativo, e com sede de conhecer a história da polícia que mata criou um Banco de Dados baseado nas fichas correspondentes ao resumo das matérias do Notícias Populares, um famoso jornal da época entre o período de 1.970 à 1.979.
No decorrer do livro, vamos conhecendo vários casos parecidos, a maioria com envolvimento de policiais que também estavam envolvidos no caso Rota 66. Sempre registrado no Boletim de Ocorrência pelos PM’s como tiroteio e resistência a prisão por parte dos supostos bandidos.
A ficha, criada para dar praticidade a anotação dos dados principais de cada caso, traz informações sobre a vítima, como nome, idade, cor da pele, endereço, profissão, local e motivo da morte. Também armazena dados dos matadores, além dos nomes da delegacia, da área do tiroteio e do delegado que escreveu o Boletim de Ocorrência.
Barcellos retrata cada caso com tamanha riqueza de detalhes e de movimentos, que é possível fazer o leitor sentir e até ver a cena, como se estivesse presenciando tudo.
A obra de Caco Barcellos foi de grande importância, pois esclarece às pessoas o que realmente aconteceu com o povo brasileiro diante da ditadura.
Muitos de nós não conhecemos a realidade desses casos, o que tem por debaixo dos panos. Por que acreditamos sempre na versão da Polícia? O que mostra o autor é que a verdade muitas vezes é omitida da sociedade brasileira pela própria autoridade.
Polícia Militar matando pessoas por desconfiar que são bandidos. Ainda, as vítimas, em geral, eram pessoas pobres, negras ou pardas e com nenhum envolvimento com o crime.
Para muitos, a sucessão dos tiros era para fazer sofrer, para o fuzilamento ter um sentido exemplar. Isso só podia ser fruto de uma mentalidade doentia e violenta, de policiais que se mostravam indignos de usar suas fardas.
Vítimas desarmadas, indefesas, apavoradas com a perseguição policial e com os tiros disparados e, enfim, mortas, com requintes de crueldade, já que o número dos disparos foi muito além do necessário para o homicídio. O que fizeram esses policiais foi pelo simples prazer de matar. É esse o cenário que o jornalista Caco Barcellos propôs, de forma esplêndida e claríssima, nos mostrar, em Rota 66 - A História da Polícia que Mata.

